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Reunimos informações teóricas sobre o voo livre no Cristo. Agora é só praticar!

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Tutorial elaborado por Eduardo Eisenlohr (Dudu)

O VÔO AO CRISTO

Artigo publicado em 2006

A versão original deste texto foi escrita em 2000. Em dezembro de 2006, com a evolução na performance das asas e dos parapentes e algumas alterações na nossa área de vôo fiz uma revisão para torná-lo mais atual. Estas dicas são fruto de observações e experiências colhidas desde 1990, quando comecei a voar de parapente em São Conrado.


Primeiramente, vamos analisar o relevo e o micro-clima dentro de nossa área de vôo, autorizada pelo órgão de controle do espaço aéreo e denominada SBR-324, que é um polígono imaginário com seus vértices na Pedra da Gávea, no Pico da Tijuca, no Cristo Redentor e no morro Dois Irmãos.
Genericamente podemos considerar que em São Conrado os pontos cardeais estão balizados a Sul pelo mar, a Norte pela rampa, a Oeste pela Pedra da Gávea e a Leste pela Rocinha. Vamos dividir o relevo no interior da SBR-324, em quatro movimentos, dispostos no sentido Leste/Oeste, do mar para o interior, a saber:


- o movimento dos Dois Irmãos;
- o movimento composto pela cordilheira da Gávea (entre a Gávea e o Horto), o Cochrane, a Agulinha, a Pedra Bonita e a Pedra da Gávea;
- o movimento composto pelo Corcovado, o Sumaré e o Queimadinho; e
- o movimento do maciço da Tijuca.


Tal configuração orográfica cria compartimentos independentes (vales), que possibilitam a existência de condições de vôos típicas do interior bem próximo ao mar. Estas condições são favorecidas pelas diversas formações rochosas e pela vegetação da Mata Atlântica, que, com o aquecimento solar e a diferente capacidade destas superfícies de absorver e liberar calor, são responsáveis pelo surgimento de atividade térmica.


Na prática, o relevo influencia da seguinte forma. Nossa área de vôo está localizada no hemisfério Sul (latitude de +/- 23º S), assim, de uma maneira geral, entre outubro e março o Sol incide mais sobre as faces Sul das cordilheiras, entre abril e setembro está incidindo sobre as faces voltadas para Norte.
Este aspecto, associado com as variações térmicas de cada período do ano, com o regime predominante dos ventos na região e com a variação da pressão atmosférica, determina as melhores épocas de vôo em São Conrado.


O micro clima na nossa área de vôo sofre efeitos da maritimidade, isto acarreta uma circulação de ventos do mar para o continente, que em São Conrado varia entre Sudeste, Leste e Nordeste, principalmente entre o nível do mar até 300 m de altitude. Acima deste nível, o vento já sofre influências da continentalidade, predominando entre Nordeste e Norte.
Dentro da bacia de São Conrado, muitas vezes o vento muda de direção influenciado pelas elevações e pelas térmicas. É por causa disto que é possível decolar com vento Nordeste, apesar da rampa estar na direção Sudeste.


A passagem das frentes frias pelo litoral do Rio de Janeiro determina alterações na direção dos ventos na região. De uma maneira geral o vento roda sempre no sentido anti-horário.

 

 

 Partindo da direção predominante Leste/Nordeste, o vento vai rodando para Norte (normalmente associada a áreas de alta pressão atmosférica no interior). Com a aproximação de uma frente fria o vento roda para Noroeste/Oeste (normalmente associada a uma queda de pressão atmosférica). A entrada da frente ocorre com vento Sudoeste (com a elevação da pressão), girando em seguida para o quadrante Sul, Sudeste, até retornar ao predominante Leste/Nordeste.


A temperatura, a umidade do ar e a pressão também exercem influências diretas no vôo em São Conrado. Apesar da maritimidade amenizar a variação de temperatura, a chegada de massas de ar frio após a passagem de frentes, aumenta o gradiente térmico (a diminuição de temperatura quando se sobe na atmosfera), contribuindo para térmicas mais fortes que atingem maiores altitudes. A pressão atmosférica, associada à temperatura e à umidade, determina a altitude em que são formadas as nuvens, que no caso da nossa área de vôo, varia entre 500 a 1.500m.

Fotos Carlos Trota


Vamos ao que interessa, como ir ao Cristo.


Vou dividir pelas condições em que normalmente se chega na estátua.

- Condição de Sudoeste (SW):


Acontece durante ou logo após a passagem de uma frente fria. É a condição mais fácil de chegar ao Cristo, pois o vento está de cauda com a direção de vôo, em compensação, a volta é bastante complicada, muitas vezes é ida sem volta e pouso no Jóquei.
O vento SW não pode estar muito forte, porque fica complicado para decolar. Ao decolar tente ganhar altura perto da Agulhinha para se afastar do rotor de SW da Gávea, em seguida vá para o Cochrane onde é mais fácil ficar alto. Quando estiver mais alto que o Cochrane vá para as torres de alta tensão da Rocinha, alí normalmente existem térmicas que permitem alcançar 1.000m, elas já derivam na direção das antenas de TV do Sumaré. Evite cruzar para as antenas com menos de 800m, pois vai chegar baixo no Sumaré e terá dificuldade para prosseguir.
Na frente do Sumaré existe um banquinho onde geralmente bomba, ganhe altura aí (ideal 1.000m), siga para o Cristo acompanhando a cordilheira pelo lado da Lagoa, na estátua normalmente existe um liftc de SW. Para voltar, eu prefiro tirar na direção do Jóquei, contra o vento, tentando alcançar as térmicas que se formam no rotor do Dois Irmãos, algumas vezes existe um cloud street formado pelo rotor que facilita o vôo. Se merrecar existe a opção do pouso no Jóquei. A passagem pelo Dois Irmãos e sobre a Rocinha é complicada por causa do rotor e do vento que é acelerado pelo venturi da Rocinha. Uma boa opção é ganhar no rotor e passar sobre o Vidigal e a Av. Niemeyer. Outra opção é voltar para as antenas do Sumaré, seguir sobre a cordilheira até a antena mais a Oeste (quase no Queimadinho) e cruzar alto (800m) para as torres da Rocinha, evitando o rotor e o venturi. É um vôo bastante trabalhado.

- Condição de Sul/Sudeste (S/SE):


Ela acontece um ou dois dias após a passagem da frente fria. É uma condição em que o vento não influi muito, tanto na ida como na volta, tornando o vôo bastante térmico.
Normalmente esta condição ocorre, com mais freqüência, nos meses de novembro e março, quando o sol está no quadrante Sul e o gradiente térmico está elevado, facilitando a formação das térmicas nas encostas voltadas para o mar. O caminho é parecido com o de SW. Cochrane, torres da Rocinha (cruzar com 1.000m), banquinho do Sumaré e seguir pela cordilheira até o Cristo. Existe uma variação de seguir das torres da Rocinha direto ao Cristo, sobre a cordilheira da Gávea, quando existem térmicas que desprendem das encostas voltadas para Sul, no rotor do Dois Irmãos, é um vôo que requer técnica.
Para voltar tem que se retornar ao banquinho do Sumaré e tirar (1.000m) para as torres da Rocinha, é necessário estar atento porque algumas vezes com vento S/SW ocorre o venturi sobre a Rocinha, caso fique na roubada tem como opções de pouso o campo da Escola Americana e o campo de futebol do Clube dos Macacos, ambos bem restritos e rotorizados (o único lugar autorizado para pouso é o Jóquei).
Existe a alternativa de se voltar sobre o Jóquei, como de SW, quando se forma o cloud street do Dois Irmãos, o vôo é contra o vento, pulando de térmica em térmica, até ultrapassar o Vidigal e seguir no lift de S/SW sobre a Av. Niemeyer para São Conrado.

- Condição de Leste/Nordeste (E/NE):


É um vôo batalhado para o Cristo, porque exige voar contra o vento para chegar lá. Normalmente tem que se buscar térmicas sobre a cordilheira da Gávea, daí tirar para o banquinho do Sumaré, alí existe um rotor onde normalmente bomba tudo com a condição de Leste. Nesta condição é fácil ficar mais alto do que as torres de TV, seguindo-se sobre a cordilheira até o Cristo. Este vôo é bastante condicionado pela posição do Sol.
Quando está no setor Sul, o vôo será pelas encostas voltadas para o mar desde o Cochrane, tem que estar atento para procurar as térmicas na transição sobre a cordilheira da Gávea, é o ponto chave do vôo.
Quando o Sol está no setor Norte o vôo será pelo rotor do Cochrane, passando sobre o vale da Gávea Pequena em direção ao Queimadinho (junto à antena quadrada), onde normalmente se encontra as térmicas formadas nas encostas voltadas para a Tijuca, muito fortes, já peguei + 9 m/s aí. Voa-se o tempo todo sobre a cordilheira do Sumaré com teto superior a 1.000m até o Cristo.
Em dias de teto mais baixo, cruzar das antenas do Sumaré para o Cristo pode ficar difícil, porque quando se aproxima do estacionamento entramos no rotor e fica bem turbulento. As vezes é melhor afastar um pouco e tentar contornar a face Sul do Cristo para buscar térmicas sobre o morro Dona Marta. Fique atento com sua altura, não baixe de 300 m, para garantir chegar ao pouso do Jóquei.
A volta nesta condição é bastante facilitada porque se retorna com vento de cauda. Na maioria das vezes existe uma térmica de plantão no estacionamento do Cristo onde é possível chegar a 1.400m. Acima de 1.100m pode-se tirar direto para as torres da Rocinha. Caso não consiga esta altitude, retorne as antenas de TV e de lá vá para a Rocinha.

- Condição de Norte (N) fraco:


É o vôo mais técnico para o Cristo. Tem que se ganhar altura em térmicas na frente da rampa para passar sobre o estacionamento e buscar as térmicas que brotam nas encostas voltadas para Norte. Existe a opção de se jogar pelo ralo da Bonita e tentar encontrar algo do outro lado. Normalmente, sobre a antiga rampa de Norte, já quase sobre a estrada do Alto da Boa Vista, nascem térmicas fortes e os urubus nos mostram a ascendência. A partir daí o vôo é sobre a cordilheira do Queimadinho e Sumaré até o Cristo, nesta condição o teto é quase sempre acima de 1.000m.
Agora, se merrecar, existe um campo de futebol perto do Grupamento Florestal do Corpo de Bombeiros, o topo de um antigo reservatório d'água próximo à Usina e a piscina do Clube Montanha, só roubada...ou seja...não corra riscos desnecessários.

 

 


Considerações importantes:


Os voadores cariocas são duplamente privilegiados, primeiramente pela Natureza que nos concede a graça de voar num lugar fantástico. Depois pelas autoridades aeronáuticas, que ainda nos concedem a permissão de voar dentro de uma cidade com três aeroportos, duas bases aéreas, dezenas de helipontos, tráfego aéreo intenso de aeronaves de asa fixa e rotativa, além de rotas de aproximação e corredores de vôo visual restritos pelas mesmas elevações que fazem nossa alegria.


O vôo ao Cristo é o sonho dourado de todo o voador carioca e de muitos outros pilotos que vêm ao Rio nos visitar. É um vôo técnico, que mesmo com os avanços na performance das asas e dos parapentes, implica em cruzar áreas sem pouso, sujeitas a venturis e rotores, e, principalmente, sob as vistas de milhares de pessoas e alvo do patrulhamento da mídia, que sempre aparece rapidamente para noticiar incidentes envolvendo os praticantes do vôo livre.


Para mantermos este privilégio que é voar na cidade do Rio de Janeiro e podermos ir ao Cristo temos que ser responsáveis. Nunca é demais lembrar que o único lugar autorizado para o pouso fora da praia de São Conrado é o Jóquei, mesmo assim em caráter excepcional, numa emergência.
Nas condições descritas acima, nos dias propícios, com prudência e bom senso, muitos pilotos terão sua oportunidade de “fazer o seu Cristo”.

As datas de Cristo que tenho na minha caderneta de vôo (desde 1989):


Jan: 03, 07, 08, 12 e 19
Fev: 07, 09, 20, 21, 23, 27 e 28
Mar: 09, 13, 14, 17, 27, 28 e 29
Abr: 02, 03, 04, 11, 20, 21, 23 e 25
Mai: 04, 09, 12, 14, 16, 26 e 27
Jun: 04 e 12
Jul: 09, 14 e 27
Ago: 04, 05, 11, 13 e 17
Set: 07, 18 e 28
Out: 07, 11 , 21, 22, 23, 24 e 29
Nov: 02, 03, 14, 19, 20, 21, 22, 23, 27, 28 e 30
Dez: 03, 07, 17, 18, 19, 26, 27, 28, 29 e 30
Algumas datas se repetem quase todos os anos, 21 Nov é uma delas.

 

Marcelo Rambo

© 2018 Voando no Cristo

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